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Enquanto o povo luta para economizar, os grandes constroem impérios






É impossível receber as informações divulgadas sobre a formação de um verdadeiro império fotovoltaico em Minas Gerais sem sentir frustração, indignação e revolta.


Durante anos, o cidadão mineiro economizou como pôde para instalar uma pequena usina solar em sua casa, comércio, propriedade rural ou empresa. Muitas famílias recorreram a financiamento, comprometeram suas economias e assumiram parcelas por vários anos buscando algo absolutamente legítimo: reduzir a conta de energia e conquistar um pouco de independência diante de uma das tarifas mais pesadas do orçamento familiar.


Essas pessoas não estavam buscando privilégios. Estavam tentando sobreviver.


Enquanto isso, pequenos empresários, engenheiros, eletricistas, instaladores e integradores percorreram Minas Gerais levando energia solar a milhares de consumidores. Foram essas empresas que construíram o mercado, capacitaram trabalhadores, assumiram riscos e ajudaram a transformar a geração distribuída em uma realidade no Estado.


Mas o que receberam em troca?


Receberam negativas, atrasos, exigências excessivas, falta de transparência e o argumento quase automático de que a rede não comportava novas conexões. A chamada inversão de fluxo passou a ser utilizada como uma muralha contra consumidores e empresas que buscavam apenas exercer um direito assegurado pela legislação brasileira.


A cada nova dificuldade imposta pela Cemig, o consumidor era obrigado a gastar mais, esperar mais e, muitas vezes, desistir do projeto.


Agora descobrimos que, enquanto o cidadão comum era informado de que não havia espaço na rede, estruturas empresariais gigantescas avançavam na formação de um patrimônio fotovoltaico avaliado em centenas de milhões de reais.


É difícil não se revoltar.


Na minha avaliação, a Cemig SIM tornou-se a principal vilã do consumidor de energia de Minas Gerais. Uma empresa ligada ao mesmo grupo econômico da distribuidora não pode disputar mercado utilizando informações, oportunidades ou condições que não estejam igualmente disponíveis para todos.


Não é aceitável que a porta esteja fechada para o consumidor e escancarada para os grandes.


Não é aceitável que uma pequena empresa mineira espere meses por uma resposta enquanto grandes empreendimentos avançam em escala industrial.


Não é aceitável que a população seja impedida de produzir a própria energia enquanto estruturas milionárias acumulam usinas, contratos e capacidade de conexão.


A FMGD alertou repetidamente sobre esse desequilíbrio. Procuramos autoridades, órgãos de controle, parlamentares, entidades profissionais e representantes do Governo de Minas. Defendemos transparência nos pareceres de acesso, publicidade sobre a capacidade da rede, neutralidade da distribuidora e igualdade de tratamento entre a Cemig SIM e os demais agentes do mercado.


Não estávamos exagerando. Estávamos tentando evitar exatamente o cenário que agora começa a aparecer diante da sociedade.


E o caos não terminou com o escândalo.


Após a prisão de envolvidos e a paralisação ou desorganização de parte dessas operações, começaram a chegar relatos de trabalhadores, prestadores de serviços, fornecedores e empresas que ainda não receberam pelos serviços executados e pelos produtos entregues nessas obras.


São engenheiros, eletricistas, montadores, transportadores, terceirizados e pequenos empresários que trabalharam honestamente, cumpriram suas obrigações e agora não sabem quando — ou se — receberão.


Esse é mais um desdobramento cruel do caos.


Quando tudo funciona, os lucros e os grandes negócios ficam concentrados. Quando o esquema desmorona, a conta é enviada para os trabalhadores, fornecedores e pequenas empresas.


Isso não pode ser normalizado.


Essas pessoas não participaram das decisões políticas, financeiras ou societárias que agora são questionadas. Elas forneceram materiais, empregaram trabalhadores, pagaram impostos e executaram obras acreditando que estavam participando de empreendimentos regulares.


Não podem ser abandonadas.


Defendo que os órgãos responsáveis pelas investigações identifiquem imediatamente todos os trabalhadores, fornecedores e prestadores de serviços que possuem valores a receber. Também é necessário preservar bens, recebíveis e recursos financeiros que possam garantir o pagamento daqueles que trabalharam de boa-fé.


É indispensável uma auditoria independente sobre os contratos, conexões, aquisições, sociedades e parcerias relacionadas aos empreendimentos investigados. É preciso esclarecer quais critérios foram utilizados para permitir a conexão dessas usinas e comparar esses critérios com aqueles aplicados aos consumidores e às pequenas empresas mineiras.


A população precisa saber se as regras foram realmente iguais para todos.


Não faço condenação antecipada de ninguém. As investigações devem respeitar o devido processo legal e o direito de defesa. Mas respeito às garantias legais não significa silêncio passividade ou aceitação de uma situação que já produz vítimas reais.


A energia solar nasceu para libertar o consumidor, gerar empregos e democratizar o acesso à energia. Não pode ser capturada para beneficiar grupos poderosos, pessoas politicamente influentes ou estruturas empresariais que parecem intocáveis.


O povo mineiro fez sua parte. Economizou, financiou, investiu e acreditou.


Os trabalhadores fizeram sua parte. Instalaram, transportaram, construíram e entregaram.


As pequenas empresas fizeram sua parte. Geraram empregos, pagaram tributos e desenvolveram o setor.


Agora, a Cemig, a Cemig SIM, o Governo de Minas e os órgãos de controle precisam explicar por que o caminho foi tão difícil para o cidadão comum e aparentemente tão amplo para os grandes.


Minas Gerais não pode continuar sendo um Estado onde produzir a própria energia é uma batalha para o povo e uma oportunidade privilegiada para os poderosos.


A FMGD continuará denunciando essa desigualdade e defendendo os consumidores, trabalhadores, profissionais e empresas sérias do setor.


Não vamos aceitar que os prejuízos sejam empurrados para quem trabalhou honestamente.


Não vamos aceitar que a falta de transparência seja tratada como normalidade.


E não vamos aceitar que a geração distribuída, construída com tanto esforço pelo povo mineiro, seja transformada em instrumento de concentração de poder e riqueza.


Jomar Britto de Oliveira

Presidente da Associação Frente Mineira de Geração Distribuída — FMGD


Teófilo Otoni, 6 de agosto de 2026.





 
 
 
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